PRÓLOGO – PEDRO AMORIM

16 ANOS ANTES

A raiva queimando cada um dos meus neurônios me deixava cego. Eu não conseguia enxergar, raciocinar, nem sentir nada que não fosse a sensação indigesta de traição se espalhando e apertando meus órgãos internos como serpentes venenosas.

As imagens à minha frente se desfaziam em fragmentos confusos enquanto eu atravessava o corredor quase correndo. Uma única certeza pulsando forte e dolorosa como um martelo nas minhas têmporas: eu tinha sido usado e descartado.

A risada amarga que irrompe pela minha garganta envenena minha boca, meus pulmões, meus olhos, meu sangue… envenena tudo.

As ligações ignoradas, as reuniões em que fiquei sozinho… Os trabalhos, abandonados pela metade nas últimas semanas, tudo agora fazia sentido.

Filha. Da. Puta!

Eu devia ter percebido antes. E talvez tivesse, mas ninguém jamais poderá acusar aquela maldita de não saber bancar a inocente. Nisso ela é boa. Boa para caralho!

Empurro as portas do laboratório com tanta força que elas voltam em segundos, quase me atingindo quando entro. Foda-se. A única coisa que importa é olhar nos olhos daquela miserável, descobrir se ela vai continuar tentando me enganar, ou se agora que já conseguiu o que queria, finalmente vai deixar a máscara cair.  

A expressão concentrada que eu achava conhecer tão bem se desfaz no rosto de Victória assim que ela ergue os olhos, alarmada pela minha entrada explosiva. Uma careta inconfundível de desprezo toma conta do seu rosto assim que ela me vê.

Sem máscaras, hoje, então. O ódio queimando meu corpo cresce como se alguém tivesse jogado gasolina nele. Porra, como eu fui imbecil!

Não é a traição o que mais me tira do sério, é ter permitido que aquilo acontecesse. Ter me deixado enganar. Não ter visto a mulher à minha frente pelo que ela realmente é, desde o começo: alguém disposto a tudo pelas únicas coisas com que se importa, dinheiro e poder.

Expiro audivelmente quando a fúria me dominando procura um jeito de sair. Não adianta porra nenhuma. Eu continuo me sentindo homicida, e não acho que esse sentimento vá embora nem tão cedo. Com certeza, não enquanto eu estiver encarando o olhar cínico de Victória.

— O que você está fazendo aqui? — ela tem a audácia de perguntar e eu umedeço os lábios enquanto um sorriso frio se estampa neles.

— Desculpa — cuspo a palavra, a ironia escorrendo fácil. — Estou interrompendo seu momento de glória? — caminho por dentro do laboratório ocupado apenas por nós dois e bancadas cheias de componentes eletrônicos. Minha vontade é virar aquelas mesas, transformar em pó cada item sobre elas até que o desejo de fazer o mesmo com a desgraçada diante de mim passe.  — Achei que você ia gostar de me ver. Afinal, o que é um grande golpe sem poder esfregá-lo na cara do idiota que você usou?

Victória solta um riso ácido, cruzando os braços com uma calma insuportável. Minha mandíbula trava e eu aperto os dentes ao ponto da dor.

— Golpe? Sério, Pedro? — Ela ergue uma sobrancelha, uma expressão venenosa deformando o rosto que eu sempre achei tão bonito. — Então você é um a vítima? Porra, você é ainda mais cínico do que eu imaginava.

— Sou tão vítima quanto você é honesta, Victória. Mas você já conseguiu o que queria, então já pode parar de fingir que algum dia se importou com alguém além de si mesma. Só me diz uma coisa, valeu a pena? Porque você está completamente louca se acha que eu vou deixar essa porra passar!

O sorriso dela endurece, mas os olhos queimam com uma ira contida que me inunda com uma satisfação amarga. Victória dá dois passos em minha direção, diminuindo a distância que ainda existia entre nós.

— Fingir? Você vai mesmo ter a coragem de usar essa palavra comigo, Pedro? — Ela estreita os olhos, debochada. — Você deve ter treinado isso na frente do espelho antes de vir aqui, não é possível.

— Vai se foder, Victória.

A resposta escapa entre meus dentes cerrados e ela ri alto, curta e dura. Meus punhos se fecham instintivamente.

— Não seja modesto, Pedro. Você já fez isso, não fez? E nem me deixou gozar!

Dou um passo à frente, meu rosto a centímetros do dela. O ódio entre nós quase palpável, cada palavra dita, cuspida ou atirada deixando um rastro de calor para trás.

— É isso, então? Esse é o motivo? Eu não quis te comer, então você me vendeu?

Victória respira fundo, a pele negra do seu rosto ganhando tons de vermelho pela raiva que borbulha sob o controle dela. Quase posso tocar a energia perigosa vibrando em seu corpo, mas isso ainda não é o suficiente.

Eu a quero tão descontrolada quanto me sinto. A quero entrando em colapso, explodindo. Essa calma irritada dela só me deixa mais louco e eu me recuso a sair daqui sem pelo menos essa vitória.

— Engraçado você se sentir no direito de falar sobre “vender” — ela rebate com a voz baixa, irônica. — Considerando que você foi o primeiro a enfiar uma faca nas minhas costas.

Eu a apunhalei? Porra! A audácia dessa mulher…

— Eu te apunhalei primeiro? Você vende nossa ideia…

— Minha ideia! — ele me corrige, os olhos faiscando, as narinas tremendo enquanto me encara.

— Sua ideia, — murmuro, balançando a cabeça de um lado para o outro. — Você é inacreditável, Porra! — Minha voz sobe de tom, e percebo que perdi totalmente o controle que fingia manter. Nossos olhos ficam travados por vários segundos, sou eu quem quebra o contato quando meu olhar se estreita — Ele te comendo? — disparo e Victória recua um passo como se a pergunta a tivesse atingido fisicamente. Ótimo. — Você é barata assim? Tudo o que ele precisou fazer foi o que eu não quis? Tirar sua calcinha?

Um som engasgado deixa a garganta dela e Victória dá mais um passo para trás. Eu avanço outro.

— Você não… — ela arfa as palavras como se aquela acusação fosse demais.

Balanço a cabeça, incrédulo que ela realmente ache que vai me enganar outra vez.

— Eu não o quê? — falo por cima dela. — Eu não o que, porra? Se fosse qualquer outro filho da puta, qualquer outro miserável, talvez essa sua ceninha de pobre coitada, de vítima, até colasse, mas você sabia que o Lucas não prestava, e sabia porque eu te avisei, caralho! Então se você se juntou com ele, foi porque quis!

Victória franze o nariz e os lábios, o desprezo em seu rosto se transformando em nojo.

— Ele é mais homem no dedo mindinho do que você é no corpo inteiro — ela cospe, tendo a ousadia de defender aquele filho da puta.

Eu rio, porque o que mais eu poderia fazer?

— Os iguais se reconhecem — murmuro, balançando a cabeça. — Não é isso o que dizem?

Victória desvia os olhos e os deixa correr pelo laboratório. A ponta da sua língua passa pelos dentes antes que a maldita volte a me encarar.

— Você gosta tanto de falar do Lucas, mas a verdade é que quando fala dele, você só está se descrevendo — diz com uma calma que não combina em nada com a direção que aquela conversa estava tomando, apenas alguns segundos antes. — Egoísta? — pergunta, abaixando levemente a cabeça, os poucos cachos que fogem do coque no alto de sua cabeça, balançando com o movimento. — Esse é você! Filho da puta? Você também! O tipo de pessoa que destrói qualquer um para conseguir o que quer e que não dá a mínima pra quem do seu lado? — Victória faz uma pausa, como se aquela não fosse uma pergunta retórica e ela realmente esperasse por uma resposta. — Ding, ding, ding! Certa resposta! Esse é Pedro Amorim!

Apesar de ter começado aquela comparação ridícula com calma, quando termina, sua respiração está acelerada, o peito subindo e descendo enquanto Victória aperta os dentes e me encara.

— Sabe de uma coisa? — pergunto depois de algum tempo em que nossas respirações foram o único som naquela sala. — Não vale a pena — decreto. — Nada disso… Você. Você não vale a pena, Victória. Uma pena eu não ter entendido isso antes.

— É… — ela concorda, assentindo com a sombra de um sorriso amargo no rosto. — Finalmente. Finalmente, você está mostrando quem você é.

Espelho seu sorriso.

— Quer saber quem eu sou, Victória? Tudo bem, eu te digo, e talvez, você queira anotar, pra não correr o risco de esquecer: o homem que vai te destruir se você se atrever a simplesmente olhar na direção dele outra vez. Estou te dando um aviso, Victória, o primeiro e o último. Nunca mais — digo, silaba por sílaba. — Nun.Ca. Mais! Atravesse meu caminho.

— Ah, não se preocupe — ela debocha, o olhar endurecendo a cada palavra que sai da sua boca. — Não há nada nesse mundo que eu queira mais do que estar a um mundo de distância de você, Pedro. Eu te odeio — diz entre dentes, os olhos brilhando com lágrimas de crocodilo não derramadas. — Com todas as minhas forças… Eu te odeio! E isso nunca, nunca, vai mudar!

Sorri com todos os dentes antes de responder:

— Promete?  

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